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The Get Down: Série sobre as origens do hip hop evidencia qualidades e defeitos de Baz Luhrmann (crítica)

Primeira parte da série produzida pela Netflix em conjunto com a Sony Pictures Television estreou no serviço de streaming na sexta-feira (12).
©Netflix

Casa de sucessos como House Of Cards, Orange Is The New Black e a recente Stranger Things, a Netflix lançou os seis primeiros episódios da série mais cara de sua história na última sexta-feira (12). Orçada em US$ 120 milhões, The Get Down se propõe contar — mesclando fatos reais e ficção — a gênese do hip hop no Bronx, distrito pobre da cidade de Nova York, nos Estados Unidos.

A atração conta com o cineasta australiano Baz Luhrmann como co-criador e diretor do cansativo episódio piloto. As digitais do diretor de Romeu + Julieta,Moulin Rouge e O Grande Gatsby estão em toda parte. Dependo da ocasião, isso pode ser encarado como mérito ou demérito para a série.


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"Onde há ruínas, há a esperança de um tesouro", diz um graffiti pixado em um vagão do metrô novaiorquino no começo do primeiro episódio da série, preparando o terreno para a apresentação do protagonista. 

Ambientada no implacável verão de 1977, o personagem principal de The Get Down é o adolescente tímido e talentoso Ezekiel Figuero (Justice Smith), um garoto afro-latino com um talento para poesia que o rende elogios de sua professora de literatura e chacota de alguns colegas de escola. Um tanto hesitante de mostrar sua arte para o mundo, Ezekiel é órfão de pai e de mãe, vítimas da violência urbana que é parte indissociável do cotidiano do Bronx. 

Idealista por natureza, o jovem é apaixonado por Mylene Cruz (Herizen F. Guardiola), uma fascinante aspirante à cantora com quem ele, que também é pianista, costuma tocar numa igreja pentencostal liderada pelo pai da moça, o severo pastor Ramon Cruz (Giancarlo Esposito), que cometeu seus pecados no passado. Assim como Ezekiel, Mylene também tem aspirações grandiosas na arte e sonha em se tornar a nova Donna Summer, para o desespero de sua família, que não tolera a disco music, chamada de "música do Diabo". Inicialmente, sua obstinação por seguir a carreira artística a deixa menos suscetível às investidas de Ezekiel.

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A jornada do herói muda quando o caminho dele cruza com o excêntrico Shaolin Fantastic (Shameik Moore), uma figura respeitada e enigmática das ruas do Bronx que fez seu nome como grafiteiro, mas quer se tornar DJ graças à agitação cultural underground que tem tomado os lugares mais ermos do bairro em que vive. Shaolin também pratica pequenos delitos à mando da magnata do crime Fat Annie (Lillias White), dona da disputada boate Les Inferno.

Logo, Ezekiel apresenta a Shaolin os seus leais amigos, os irmãos Kipling (Skylan Brooks interpreta Ra-Ra Kipling, T.J. Brown Jr. interpreta Boo-Boo Kipling e Jaden Smith interpreta Dizzee Kipling), que se iniciam na cultura hip hop após Shaolin levá-los para uma festa comandada pelo DJ Grandmaster Flash (Mamoudou Athie). Naquela ocasião, Ezekiel descobre a força do freestyling e percebe que pode dar vazão à suas angustias líricas como MC. Juntos, todos eles formam o coletivo The Fantastic 4 + 1.

O piloto de The Get Down, que deveria ser o episódio mais sedutor da trama, oferece, de cara, um desafio para o espectador. A Netflix se notabilizou por revolucionar a forma como as pessoas consomem séries de TV, permitindo que uma temporada nova seja assistida em uma só sentada, se o espectador assim desejar e se sentir conquistado pela atração. Entretanto, o estilo demasiadamente frenético de Luhrmann prejudica muito a narrativa do piloto, que tem uma montagem cacofônica e joga uma série de personagens em tela sem conceder muita profundidade a eles. Uma péssima introdução para a atração. É como se o diretor quisesse chamar mais a atenção para si mesmo e suas escolhas estilísticas do que para o conteúdo da obra e seus personagens, causando uma sensação de tontura.

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Com todos os seus floreios, Luhrmann tenta abraçar diversos gêneros em exaustivos 90 minutos, com cacoetes de comédia romântica, musicais, filmes de gângster e filmes da blaxploitation, sem conseguir dar conta de todos eles ao mesmo tempo.

Apesar das ressalvas, logo no primeiro capítulo fica claro o respeito que o diretor têm pelo hip hop e peladisco music. As cenas que destacam os gêneros musicais citados são as melhores do piloto da série, que contou com figuras chave do rap como consultores, como o lendário rapper Nas, o DJ pioneiro Grandmaster Flash, o MC Kurtis Blow e o historiador Nelson George. Em determinado momento do terceiro episódio, o gângster movido à cocaína Cadillac (Yahya Abdul-Mateen II), filho de Fat Annie, defende a disco music, gênero que foi alvo de preconceito e tido como alienante por fãs brancos de rock no final dos anos 70, lembrando que não é só a moral do rap que a série está disposta a exaltar. "Disco é puro sentimento. Há uma paixão trágica pelo não-amado que hipnotiza pra caralho, se movendo com um balanço funk que... Uau!", diz ele.

Logo nos primeiros minutos do episódio descobrimos que Ezekiel conseguiu se tornar um rapper famoso graças ao flashforward que mostra o personagem, interpretado por Daveed Diggs em sua fase adulta, se apresentando diante de uma multidão no Madison Square Garden em 1996, com letras (escritas e cantadas por Nas) que descrevem o que está por vir no episódio, numa sacada interessante musicalmente (as canções são realmente boas) mas um tanto brega visualmente.

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No final dos anos 70, marcada por gestões inertes de governos corruptos e pelos altos índices de criminalidade, a região do Bronx em Nova York em muito se assemelhava a uma zona de guerra, com suas ruínas e prédios em constantes chamas. Em The Get Down, Luhrmann recria essa época com a ajuda de efeitos especiais que, em alguns momentos, conferem aos seus cenários uma artificialidade que lembra o visual da Nova York de 1920 de O Grande Gatsby. Entretanto, no geral, o design de produção e os figurinos ajudam a compor uma ambientação convincente. Destaque para as rimas visuais com os cenários de Amor, Sublime Amor e Os Embalos de Sábado à Noite.

Como não poderia deixar de ser, considerando o estilo do cineasta, o tom de história sobre as origens do hip hop é de fábula, com um olhar romantizado que muitas vezes quase resvala no realismo mágico, o que não é, por si só, uma falha, mas desequilibra um pouco a obra, que também é levemente baseada em fatos reais.

Em "Siga quem sopra suas chamas", segundo episódio de The Get Down, as coisas começam a mudar para melhor. Com uma narrativa mais coesa, o capítulo dirigido por Ed Bianchi, começa a focar mais nas histórias que conectam aquela comunidade e rende dois dos melhores momentos da série. Num deles, Grandmaster Flash, apresentado como um sensei à la Yoda para o Shaolin, ensina alguns segredos da prática de DJ, ensinando-o como usar duas "vitrolas" para construir um beat de rap. Em outro, há uma catarse dirigida com dinamismo hiperbolizante (no melhor dos sentidos) quando Mylene, cantando na igreja de seu pai, forja um transe espiritual para chamar a atenção de um produtor musical que estava no culto para observá-la. 

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O roteiro aborda temas proveitosos para a trama quando situa os primeiros passos do hip hop dentro de um contexto marcado por exclusão social, falta de perspectivas, inquietação cultural, criminalidade e religiosidade. Outra boa sacada é o estudo que faz sobre a ética no gueto. Em "A escuridão é sua luz", terceiro episódio, após uma briga com Shao, Ezekiel e os irmãos Kipling dão uma festa usando uma fita pirata de um show do DJ Grandmaster Flash, fingindo que foram eles que elaboraram aquelas batidas, para arrecadar dinheiro. Apesar de serem inseridos em uma comunidade em que é considerado "normal" que jovens da idade deles trafiquem drogas ou cometam furtos e assaltos, a falta de autenticidade artística foi encarada como uma falha inaceitável para reputação do The Fantastic 4 + 1.

Contudo, a fluidez do roteiro é afetada por subtramas desinteressantes ou mal desenvolvidas. Todo o plotenvolvendo o tiroteio na Les Inferno e a investigação conduzida pelos capangas da Fat Annie é dispensável. Por maior que seja o talento de Giancarlo Esposito como ator (vide Breaking Bad), o pastor interpretado por ele soa desperdiçado. Jimmy Smits também entrega uma atuação competente na pele do "Poderoso Chefão porto-riquenho" Francisco "Papa Fuerte" Cruz, mas seu personagem sofre da mesma falta de profundidade. 

Quem dá vivacidade à série são os protagonistas Justice Smith, Shameik Moore e Herizen F. Guardiola. Como Ezekiel, que ganha o apelido de Books por causa de sua inteligência, Smith exibe um desempenho capaz de cobrir as ebulições internas de seu personagem, que encara seu momento de descobertas e amadurecimento com firmeza moral. Moore, que vive em The Get Downum personagem que é o inverso do que apresentou em Dope - Um Deslize Perigoso, tem o swag necessário para fazer de Shaolin Fantastic o amigo que todos gostariam de ter. Guardiola, que está apenas no segundo papel de sua carreira, imprime valentia, entusiasmo e ternura a Mylene, além de cantar incrivelmente bem.

Os seis primeiros episódios de The Get Down são, numa análise geral, irregulares e têm muitos problemas, mas há uma série de bons momentos musicais que chamam a atenção positivamente.
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Por Multimidia Info

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